O tema mais grave de que ninguém fala

 

 

A exposição de uma criança a Experiências Adversas na Infância (EAI) pode levar a alterações a nível físico e cerebral, moldar a sua personalidade, distorcer a perspetiva que ela tem de si própria e do mundo que a rodeia, fragilizar o seu sistema de vinculação, minar a sua confiança, condicionar os seus relacionamentos e impactar gravemente a sua vida, comprometendo a sua possibilidade de crescer, evoluir e superar as adversidades.

As EAI podem assumir várias formas e esconder-se de nós e das próprias vítimas.  As histórias podem incluir episódios soltos ou práticas reiteradas, mais ou menos gravosas e incluem maus-tratos, a morte de um familiar ou amigo próximo, o divórcio ou separação dos pais, a exposição a ambientes de guerra ou conflito, entre outras situações que ocorrem durante o desenvolvimento do indivíduo até à idade adulta. Porém, as EAI não se resumem ao que acontece na vida das pessoas, mas à sua perceção e reação, resultado dessas experiências.

Numerosas evidências científicas demonstram a relação direta entre as EAI e grande parte dos problemas sociais, que são condicionados por dificuldades relacionais,  baixo nível de desempenho escolar e profissional, pobreza,  comportamentos desviantes (dependência de substâncias, álcool, jogo, instabilidade relacional, relações abusivas, conflitualidade, violência e criminalidade).

Contudo não só a nível social existem consequências. Ao nível da saúde, as EAI fomentam problemas de saúde física e mental, condicionam as hipóteses de evolução a nível pessoal e profissional (falta de rendimento, produtividade), risco agravado de depressão, suicídio e até morte prematura.

As EAI são mais comuns do que se pensa, mas são frequentemente silenciadas pelos venenos da mente humana, como o medo, a vergonha, a culpa e o ressentimento. Por trás de cada história silenciada estão pessoas que precisam de ser escutadas com empatia, com amor, com bondade, com compaixão. Não podemos permitir que as vítimas se silenciem. O tema das EAI tem de ser trazido à ordem do dia, pois é a causa de todas as causas sociais.  Ao dar voz às EAI estamos a encorajar as vítimas a tornarem-se protagonistas das suas próprias histórias. Só dando voz a esta causa podemos assegurar uma governação integrada e em rede, intervenção precoce e individualizado das vítimas. Só dando voz a esta causa podemos evitar que os pais continuem por desconhecimento, por falta de apoio ou de amor incondicional e genuíno a provocar EAI aqueles que mais desejam amar.

Está mais do que no momento de abordar as questões sociais de forma abrangente e integrada, promovendo uma ação pluridisciplinar direta e musculada sobre as causas, vencendo o limite paradigmático da mera gestão das consequências. 

Tu podes dar voz a esta causa.

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